Mostrar mensagens com a etiqueta Dos livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dos livros. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Livros, livros, livros...



MATEJ KRÉN, Book Cell
Instalação no Hall do CAMJAP da FCG
[19 Julho 2006 a 29 Abril 2007]

Em BooK Cell, MATEJ KRÉN recorre ao procedimento habitual que usa no seu trabalho, empilhando milhares de livros para assim criar uma construção arquitectónica que nos permite nela penetrar.
Este poço hexagonal é construído com pedras-livros, retirando-lhes deste modo a sua função primeira e usando-os como material da escultura-arquitectura.
O saber nos livros guardado, assim permanece: fechado e inacessível.
Só o acto destrutivo ou de desmantelamento os recuperará para a sua função de leitura.
Entretanto, os livros, trabalhados como matéria escultórica, corporizaram o espírito do lugar que o autor nos construiu: um recinto hexagonal com uma passagem de espelhos paralelos que desmultiplicam ad infinitum o espaço e põem o nosso caminhar na vertigem da queda, no pânico do desatino espacial.

Book Cell reúne edições da Fundação Calouste Gulbenkian ao longo dos seus 50 anos de actividade editorial e vários outros livros do mundo.
Desta forma sai reforçada a natureza site specific do trabalho com a inclusão de objectos (os livros) que representam um pilar basilar da intervenção cultural da Fundação e são metáfora da própria construção do conhecimento.


Matej Krén (1958, Trenčín, Eslováquia)
Vive e trabalha em Praga.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Sofia

Policlecto
Dorífero, c. 450-440 a.C.

O nu é uma invenção grega.
No Egipto, na Assíria, na Caldeia, o nu é apenas uma maneira de vestir. Mas o pensamento grego crê na «aletheia», crê no «não-coberto», no «não-oculto», procura o homem não-coberto, nu.
Desde o início o escultor grego, fundamentalmente, coloca-se não em frente do homem vestido com armadura de guerreiro ou vestes de escravo, sacerdote ou príncipe mas em frente da nudez do homem em si. Porque crê que o ser está na «physis» o Grego crê que o ser está no mundo em que estamos. Para o Assírio, para o Egípcio, para o Caldeu, a verdade do ser está num outro mundo, no mundo do sagrado exterior ao universo e oculto. Mas o Grego crê no divino interior ao universo. E neste mundo, no estar, no aparecer, no não-oculto, na «aletheia», que ele busca o ser.
A este mundo em que está o Grego chama “Kosmos”. Mas “Kosmos”, oposto a “Kaos”, não significa apenas mundo, mas mundo ordenado-belo.
Esta ordenação é em si própria criadora e divina: e ao esculpir um corpo o artista grego tenta mostrar a relação do homem com uma ordem que é a íntima estrutura do “Kosmos”, da “physis”, do mundo do qual o homem brota e se ergue.
O corpo humano para o artista grego não é um modelo mas um módulo. E é fenómeno em que o ser se manifesta, emerge e brilha. É ser, estar, aparecer.
Por isso o Cânon de Policleto se liga à filosofia pitagórica. Pois esse Cânon não é uma criação estética. Não se trata de descobrir uma fórmula da beleza para criar beleza pois a beleza não é exterior ao que manifesta. Trata-se de descobrir a lei do corpo humano, lei na qual está presente uma ordem divina. Pois a beleza é descobrimento.
Quando na praia apanhamos uma concha aquilo que tão profundamente nos toca é isto: a forma que temos na mão é uma forma que não podia ser doutra maneira. E como se na concha estivesse escrito o pensamento do universo. Ela é verdadeira­mente o fruto dum Kosmos, o fruto dum mundo ordenado, a palavra que confirma a nossa confiança.
Assim também no corpo humano o artista grego lê a ordem do mundo onde está.
E por isso falar do nu na arte grega é sempre falar da relação do homem com o divino.
Homero diz-nos continuamente que os homens são semelhantes aos deuses e Aristóteles fala nestes termos da condição humana:
“Como os poetas nos recomendam o homem não deve, por­que é homem, pensar apenas nas coisas humanas, nem, porque é mortal, pensar apenas nas coisas mortais: o homem deve, na medida das suas possibilidades, viver uma vida divina.”

Aristóteles “Ética a Nicómaco” (X, 7, 1177 B 30).

Sophia de Mello Breyner Andressen, in O Nu na Antiguidade Clássica

domingo, 15 de junho de 2008

Ricardo Reis

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis

sábado, 14 de junho de 2008

Pessoa | Caeiro [O Guardador de Rebanhos]

VII

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
[de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
[nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Alberto Caeiro

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Ao longo do tempo e contra o tempo

Bernini, Plutão Raptando Proserpina, 1622


"O que é essencial numa autêntica cultura é uma certa maneira de conjugar as relações entre o tempo e a morte individual.
A força da vontade que engendra a arte e o pensamento desinteressado, a resposta empenhada que, só ela, é capaz de transmitir a arte e o pensamento a outros seres humanos, ao futuro, enraízam-se numa aposta na transcendência. O escritor ou pensador visa que as palavras do poema, as linhas da argumentação, as personagens do drama, sobrevivam à sua própria morte, participem do mistério de uma presença e de um presente autónomos. O escultor confia à pedra a energia vital, ao longo do tempo e contra o tempo, que em breve abandonará as suas mãos de carne.
A arte e o espírito dirigem-se aos que ainda não existem, ainda que sob o risco, um risco deliberadamente assumido, de não serem reconhecidos pelos vivos."

George Steiner,
No Castelo do Barba Azul, Algumas Notas para a Redefinição de Cultura, Relógio de Água, Lisboa, 1992

domingo, 18 de maio de 2008

Matsuo Bashô (1644 - 1694) II

Não esqueças nunca
o gosto solitário
do orvalho

terça-feira, 6 de maio de 2008

Aos dezassete anos não somos atinados




Roman

I.
On n'est pas sérieux, quand on a dix-sept ans.
- Un beau soir, foin des bocks et de la limonade,
Des cafés tapageurs aux lustres éclatants !
- On va sous les tilleuls verts de la promenade.

Les tilleuls sentent bon dans les bons soirs de juin !
L'air est parfois si doux, qu'on ferme la paupière ;
Le vent chargé de bruits - la ville n'est pas loin
A des parfums de vigne et des parfums de bière...

II.
-Voilà qu'on aperçoit un tout petit chiffon
D'azur sombre, encadré d'une petite branche,
Piqué d'une mauvaise étoile, qui se fond
Avec de doux frissons, petite et toute blanche...

Nuit de juin ! Dix-sept ans ! - On se laisse griser.
La sève est du champagne et vous monte à la tête ...
On divague ; on se sent aux lèvres un baiser
Qui palpite là, comme une petite bête ...

III.
Le coeur fou Robinsonne à travers les romans,
Lorsque, dans la clarté d'un pâle réverbère,
Passe une demoiselle aux petits airs charmants,
Sous l'ombre du faux col effrayant de son père ...

Et, comme elle vous trouve immensément naïf,
Tout en faisant trotter ses petites bottines,
Elle se tourne, alerte et d'un mouvement vif ...
- Sur vos lèvres alors meurent les cavatines ...

IV.
Vous êtes amoureux. Loué jusqu'au mois d'août.
Vous êtes amoureux. - Vos sonnets La font rire.
Tous vos amis s'en vont, vous êtes mauvais goût.
- Puis l'adorée, un soir, a daigné vous écrire !...

- Ce soir-là,... - vous rentrez aux cafés éclatants,
Vous demandez des bocks ou de la limonade...
- On n'est pas sérieux, quand on a dix-sept ans
Et qu'on a des tilleuls verts sur la promenade.


Jean-Arthur Rimbaud
Poésies. 29 sept[embre 18]70

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Matsuo Bashô (1644 - 1694)


Abrindo de par em par
as portas do palácio:
A PRIMAVERA

terça-feira, 29 de abril de 2008

A Promessa de um Sentido

"No texto escrito, quer se trate de uma tabuinha de argila, de um pedaço de mármore, de papiro ou de pergaminho, quer tenha sido gravado em osso, guardado em rolo ou impresso em livro, está presente um grau máximo de autoridade (vocábulo que, como o étimo latino autoritas, encerra em si a palavra "autor"). O simples facto de escrever, de lançar mão de uma transmissão escrita, significa reivindicar para si o estatuto do discurso magistral, do canónico. Todo e qualquer texto escrito é da ordem do contratual, o que é uma evidência no caso dos documentos teológicos-litúrgicos, de todo e qualquer código jurídico, tratado científico ou manual técnico e, também, de maneira muito vincada embora mais subtil ou até subversiva, no caso dos textos cómicos e efémeros. O texto escrito implica, entre o autor e o respectivo leitor, a promessa de um sentido."
George Steiner, O Silêncio dos Livros, Gradiva, Lisboa, 2007